Rafael Coelhoo'Clock

A influência da angústia (Harold Bloom)

Razões revisionárias

 1. Clinamen é aquela disleitura poética (…) em que aparece, no próprio poema, uma tentativa de corrigir o precursor, tal que acarreta conceber o primeiro poema preciso só até certo ponto, mas, deve o novo ser modificado, precisamente, no sentido daquilo que nele se mostra novo.

2. Tessera é daquele poeta que é a conclusão e a antítese do seu precursor (…). Um poeta, que completa antiteticamente seu precursor, lê de tal modo o poema pai que se vale dos próprios termos deste, mas para lhe atribuir um outro sentido, como se o precursor não o tivesse realizado suficientemente.  

3. Kenosis é um dispositivo de quebra, similar aos mecanismos de defesa que nossas psiques empregam para controlar as compulsões repetitivas; o kenosis é então um movimento de descontinuidade com o precursor. O poeta posterior, aparentemente esgotando-se de seu próprio afflatus, de sua divindade imaginativa, parece se exaurir como se tivesse de parar de ser poeta, mas se exaure de tal jeito, relativo ao precursor do poema pai, já esgotado, que acaba por exaurir este; se exaure de tal jeito que o poema mais atual não parece ser tão absolutamente esgotado, como parece ser o primeiro.

4. Demonização ou um movimento contra um oponente sublime, personalíssimo, como resposta contrária a um precursor concebido como sublime (…) o poeta posterior se dispõe a perseguir aquilo que acredita ser a força do poema pai, que não pertence propriamente ao precursor, mas, em uma escala, quer ir um pouco mais de onde este chegou. E ele faz isto em seu poema, tanto mantendo sua relação com o poema pai, como abstraindo a unicidade do trabalho mais antigo.

5. Askesis ou um movimento de auto-purgação (…) o poeta posterior não se submete, como no kenosis, a um movimento revisor com vistas ao esgotamento, mas a um movimento com vistas a um corte de excessos; ele dá um passo a mais que seu próprio dom humano e imaginativo, para se separar dos outros, incluído o precursor, e o faz assim em seu poema, tanto mantendo o respeito ao poema pai, como fazendo com que o poema se submeta a um forte askesis; o dom do precursor fica igualmente truncado.

6. Apófrades ou o retorno do morto (…) o poeta posterior, em sua fase final, já carregada por uma solidão imaginativa, que chega quase a ser um solipsismo, fixa seu poema tão abertamente contra o trabalho do precursor, que logo podemos averiguar que o círculo se fechou, completou uma volta inteira e podemos nos encontrar, de novo, com o poeta posterior, tomado pela aprendizagem inicial, como se nos encontrássemos com ele antes mesmo que sua força criadora começasse a se firmar frente às razões revisionárias. Contudo, como o poema firma-se abertamente ao precursor, ao qual já estava aberto, o efeito estranho é que a realização do poema novo parece-nos, não como se tivesse o precursor escrito aquilo, mas como se o poeta posterior tivesse, ele mesmo, escrito o trabalho tão característico do precursor.

Criticismo antitético

Se imaginar é interpretar erroneamente, tal como todos os poemas são antitéticos a seus precursores, então, para imaginar depois de um poeta, basta aprender suas próprias metáforas, empregadas em seus atos de leitura. Assim, o cristicismo torna-se necessariamente e igualmente antitético, uma série de variações oriundas de enganos criativos, relativas a atos originais. A primeira divergência é aprender a ler, tanto um grande poeta precursor, como seus maiores descendentes, que assim se compeliram a sê-lo.

A segunda é ler os descendentes como se fôssemos seus discípulos e, dessa forma, nos compelir a aprender aquilo que devêssemos revisar como se fôssemos usá-los em nosso próprio trabalho e como os reivindicássemos às nossas próprias vidas. Entretanto, nenhuma dessas questões é ainda o criticismo antitético. Ele só se inicia quando nós mensuramos o primeiro clinamen comparado ao segundo. Quando descobrimos qual é o sotaque dessa divergência, prosseguimos a aplicá-la corretivamente à leitura do primeiro, não à do segundo poeta ou grupo de poetas. (…) Cada poema é um mal entendido do poema pai. Um poema não é uma superação da angústia, mas é a própria angústia. Os mal entendidos dos poetas, em seus poemas, são ainda mais drásticos do que os mal entendidos dos críticos e do criticismo; existe, contudo, só uma diferença de grau, e ela não é assim grande. Não há entendimentos, mas somente mal entendidos, assim sendo, o criticismo não é mais que poesia em prosa. Críticos são somente (precisamente) avaliados melhores ou piores se relativos a outros críticos, poetas são avaliados melhores ou piores se relativos a outros poetas. O crítico deve ser descoberto assim como o poeta, que deve ser descoberto a partir da abertura dada pelo seu precursor. A diferença é que o crítico tem mais pais. Afinal, seus precursores são os poetas e os críticos. Entretanto, na verdade, críticos também são precursores de poetas e a história tem nos mostrado isso freqüentemente.

1973, Oxford University Press. The Anxiety of Influence: A Theory of Poetry. New York: Oxford University Press, 1973; 2d ed., 1997. Tradução de Rafael Coelho.

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